quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Xingamentos e conflitos: o início dum novo ano letivo


Há pouco mais de uma semana, numa escola nova – e bem diferente do privilegiado ambiente sociocultural ao qual estava acostumado em minha escola prévia –, iniciei o ano letivo. Uma turma, em especial, tornou-se o retrato dos novos desafios para minha vida como professor naquela nova realidade. Nosso primeiro encontro foi barulhento, mas bastante frutífero. Desenvolvemos uma discussão em pequenos grupos sobre algumas frases provocadoras. Eram adolescentes, alunas e alunos do primeiro ano do Ensino Médio, sendo jovens barulhentos. Apesar de eu ter ouvido alguns comentários negativos sobre a turma um dia antes de nosso primeiro encontro, tudo funcionara como esperado.

Uma semana depois, a cena era bem diferente. O barulho era perturbador, apesar de minhas tentativas de “trazê-los” à aula. Pareciam sequer se importar com o fato de haver um professor em sala. A maioria dos alunos e alunas daquela turma parecia nunca ter aprendido noções básicas de bons modos em casa ou na escola. Uma voz ergueu-se do fundo da sala com um xingamento torpe, e, segura de que não seria punida, acrescentou: “É mais fácil que você perca seu emprego do que eu seja mandada pra casa!”. Não preciso dizer que fui tomado duma irritação anormal para uma personalidade como a minha.

No momento em que aquilo aconteceu, um zilhão de pensamentos pareciam correr por minha mente. Uma cadeia de possíveis ações e consequências invadiram meu raciocínio, como que servindo de justificativa e condenação para qualquer coisa que eu fizesse. Finalmente, lembrei-me que ela não poderia estar com raiva de mim, já que não me conhecia; e, apesar de suas palavras e ações terem sido desrespeitosas, seu desrespeito não era contra minha pessoa em si, mas, no máximo, contra o papel que desempenhava ali, impondo-lhe um tipo de conhecimento que não via como necessário.

Não pedi que deixassem a sala – ela e os outros barulhentos que não apreciavam o “perder o tempo com aula de Filosofia”. Por mais fraco que isso possa parecer a outros professores, para mim seria como dizer àqueles jovens – especialmente à garota que me xingara – que eu desistiria deles facilmente.

Fugindo ao meu plano de aula, pedi-lhes, como desafio, que se imaginassem mortos e escrevessem um epitáfio para seus túmulos, como se fora um amigo ou parente próximo escrevendo sobre eles. Poucos o fizeram, mas os que foram escritos e compartilhados levantaram uma discussão interessante sobre a consciência de si. Apenas nos últimos minutos de aula voltei ao que ocorrera e deixei claro que aquele fora um comportamento inaceitável, já que fora um desrespeito não só a mim quanto ao resto da turma.

Hoje, um dia depois do incidente, a Coordenação Pedagógica – que fora informada sobre o que ocorrera – levou-me de volta àquela sala e repreendeu vigorosamente a turma pelo ocorrido. Eles foram forçados a me pedir desculpas. Confesso que me senti extremamente desconfortável com a cena, mas, ao mesmo tempo, compreendo porque aquilo foi feito.

Apesar de aquele incidente, em particular, estar no passado, ele se junta a outros tantos que já tive com alunos ao longo dos anos. E a pergunta que sempre me vem à tona é “como lidar com comportamentos indisciplinados, com sentimentos de frustração ou com a demonstração de raiva por parte dos estudantes?” Será que deveríamos encará-los como uma afronta a nós, ou seria “sintoma” de outra coisa?

Como tudo em nossas relações interpessoais, não há uma resposta única e válida para todas as circunstâncias. Ademais, nem sempre seremos capazes de dar a resposta adequada à situação durante o incidente – pelo menos, isso é verdade em minha experiência pessoal. Pessoalmente, penso que o que me resta, o que espero ser capaz de fazer, é dar uma resposta madura e emocionalmente inteligente aos problemas das relações com outras pessoas. E isso é algo que nunca deixo de aprender em minha vida como professor.

Gibson