Não
tenho tempo agora para responder a todas as questões levantadas
pelos colegas que participaram do debate sobre ensino de Literatura,
mas, brevemente, gostaria de fazer só algumas observações:
1)
Não rejeito a abordagem cronológica apenas no ensino da Literatura;
a rejeito também nos ensinos de História e de Filosofia. Até hoje,
na maioria dos casos – há algumas exceções –, a abordagem
temática tem funcionado em minha prática docente. A organização
de obras e autores em períodos e movimentos é utilitária e, assim,
pode ser substituída por outra forma de “classificação” (para
aproveitar o termo utilizado na discussão). Minha intenção,
enquanto professor de Literatura na Educação Básica, não é
formar pseudo historiadores da Literatura, capazes apenas de marcar
uma opção em perguntas de múltipla escolha: é, antes, formar
leitores competentes, atentos, que saibam ler nas entrelinhas, e que
desenvolvam um apreço pela leitura literária – de acordo com seus
próprios gostos.
2)
Note que me referi à abordagem cronológica – que alguns chamaram
equivocadamente de “abordagem historiográfica” (e digo
“equivocadamente” porque uma abordagem não se torna
“historiográfica” simplesmente por fazer uso de dados
cronológicos!) – apenas no que concerne ao ensino na Educação
Básica. Obviamente, se estivéssemos formando historiadores da
Literatura, necessitaríamos nos preocupar, até certo ponto, com
dados cronológicos. Mas esse não é o caso na escola.
3)
Não poderia ser mais direto acerca de minha posição e prática do
que fui naquela discussão. Na maioria das escolas brasileiras onde
há alguma forma de “instrução” literária, essa se resume a
uma aula de cerca de cinquenta minutos semanais. Se olharmos para as
propostas curriculares, e mesmo para os livros didáticos – ou
melhor, os “ditadores das aulas” (considerando que,
frequentemente, são esses materiais que ditam não apenas o que deve
ser ensinado, mas também como deve ser ensinado!) –, veremos que o
curtíssimo tempo das aulas de Literatura não nos permitiria tratar
de todo aquele conteúdo e, ao mesmo tempo, formar leitores
literários. Então, há de se fazer uma opção. A minha opção tem
sido sempre a de facilitar a formação de leitores literários – a
história literária, no caso específico da escola, torna-se, em
minha prática, apenas uma ferramenta secundária. Honestamente, não
me envergonho de minha opção!
4) É
aí que entra a teoria. As concepções “teóricas” que abraçamos
– e por “teóricas”, aqui, me refiro à visão que temos da
realidade, que não é necessariamente tão sistemática quanto as
chamadas “teorias” que utilizamos no meio acadêmico e/ou
científico – estão indissociavelmente atreladas ao processo de
leitura. Todos nós projetamos sobre os “textos” que “lemos”
nossa visão de mundo; e, no caso específico da Literatura, nós
professores projetamos nossas bases teóricas (agora, sim, da Teoria
enquanto construção filosófica) sobre os textos que lemos e
discutimos em sala. É por essa razão que, para mim, se faz
necessário informar aos estudantes acerca de minhas fontes teóricas,
da diversidade de visões teóricas e que, portanto, é possível se
chegar a compreensões diversas dum mesmo texto. Isso nem sempre é
fácil, mas é possível.
Essa
é uma discussão política deveras complexa e que, como viram, leva
a manifestações nem sempre muito gentis entre colegas de profissão.
Posso resumi-la a um ponto crucial: eu, enquanto professor, não sou
um ditador intelectual – sou um facilitador da aprendizagem; assim,
me recuso a imaginar que meus alunos não sejam capazes de lidar com
ideias e com o conhecimento!
Assim
que tiver mais tempo, responderei às questões que me enviaram.
Como
resposta a uma manifestação minha sobre as afirmações dum vlogger/autor brasileiro (guru duma nova geração autoproclamada
“conservadora”), um colega me enviou a ligação para um vídeo
no qual o mesmo autor discorre – em sua “civilizada” maneira! –
sobre aquilo que ele chama de “método sócio-construtivista”, ou
o que o resto de nós chama de “construtivismo”.
Abaixo,
responderei, brevemente, a algumas das perspectivas expostas no vídeo
– deixando de lado, por ter mais o que fazer da vida, as
recorrentes grosserias do nobre filósofo para com seu público.
1.
“Método sócio-construtivista”
O
construtivismo, em si, não é um método de ensino, é um conjunto
de teorias epistemológicas. Sobre essas – ou uma ou algumas dessas
– múltiplas teorias podem-se construir diferentes métodos de
ensino; assim, não há “o método construtivista de ensino”.
2.
“Para o método construtivista de ensino só existe[sic] dois elementos em jogo: um é o aluno e o outro é o
mundo, que é o objeto.”
A
propósito, para alguém que ataca a “incorreção” gramatical
alheia como uma forma de “burrice”, é interessante como Carvalho
consegue cometer um erro de concordância verbal tão simples: ele,
talvez, não saiba que o verbo “existir” deve concordar em número
com seu complemento, assim “só existemdois elementos”! Mas, como
não partilho da visão linguística do nobre filósofo e, assim, não
penso que as pessoas que violam a “gramática” normativa sejam
intelectualmente deficientes – se o fizesse, tanto ele quanto eu
seríamos intelectualmente deficientes –, analisemos sua afirmação:
Não,
para construtivistas não há apenas “dois elementos em jogo” no
processo de aprendizagem. Para compreender isso, temos de nos lembrar
de onde saem as ideias construtivistas. Temos de revisar um pouco da
história da filosofia.
Pensemos
sobre as questões epistemológicas da modernidade – isto é,
questões que lidam com a origem do conhecimento. No chamado
Ocidente, temos lidado, na modernidade, com três grandes tradições
que buscam oferecer uma explicação filosófica para o ser e o fazer
do conhecimento, e, consequentemente, para como aprendemos: A) a
tradição racionalista moderna, iniciada por René Descartes;
B) a tradição empirista, iniciada por John Locke; e, C) a
via media da tradição interacionista de Immanuel
Kant.
Explicando
cada uma dessas grandes tradições de forma muito breve – e,
portanto, deficiente –, poderíamos resumi-las da seguinte forma:
a) A
tradição racionalista moderna → o racionalismo
moderno emergiu como uma versão atualizada do idealismo platônico.
Para a tradição platônica, já trazíamos, desde antes do
nascimento, as ideias das coisas, que nossas almas já conheciam
desde sua vinda do mundo das ideias verdadeiras/perfeitas. Em sua
versão moderna, as ideias são compreendidas de forma mais ampla,
mas, ainda assim, como algo que trazemos ao mundo – ou seja, como
algo inato. Diferentemente do idealismo platônico, o racionalismo
moderno se baseia no raciocínio a partir da natureza desenvolvida na
modernidade. Em seu cerne, encontra-se a visão de que as únicas
fontes de conhecimento sejam, exatamente, a razão e o pensamento.
b) A
tradição empirista → opostamente ao racionalismo, o
empirismo compreende o conhecimento como algo que se obtém a partir
do mundo externo, por meio dos sentidos, da experiência. Assim, para
os empiristas, nasceríamos com uma mente sem conteúdos – uma
tábula rasa. O conhecimento seria obtido apenas através da
experiência com o meio e com os estímulos externos – ou seja, o
conhecimento viria do objeto, de forma passiva, para o indivíduo; o
objeto externo é, assim, a única fonte de conhecimento.
c) A
tradição interacionista
→ Immanuel Kant, em sua monumental “Crítica da razão pura”,
ofereceu uma solução para os reducionismos tanto do racionalismo
quanto do empirismo. Para Kant, tanto o sujeito quanto o objeto
externo desempenhariam um papel na formação do conhecimento.
Através da intuição recebemos as impressões dos objetos externos;
e, através do entendimento, articulamos essas impressões, aplicando
os conceitos que dão forma a esses objetos. Em outras palavras, o
conhecimento seria formado através da interação entre o pensamento
humano e a experiência sensorial. [Obviamente, a teoria do
conhecimento desenvolvida por Kant é muito mais complexa do que essa
simplificação, mas não é minha intenção aqui discuti-la –
apesar de sua fundamentalidade para o construtivismo.]
Essa
teoria epistemológica de Kant é a base filosófica para o
construtivismo, originalmente, a chamada “epistemologia
genética” de Jean Piaget. Piaget desenvolveu sua epistemologia
genética influenciado pela epistemologia de Kant, mas é importante
ter o cuidado de não sinonimizá-las – elas não são,
necessariamente, a mesma coisa. Obviamente, o construtivismo,
enquanto conjunto de teorias, recebeu contribuições importantes de
outros pensadores além de Kant e Piaget, como Vygotsky, Luria e
Wallon, por exemplo.
Mas,
voltando à afirmação de Carvalho, na abordagem construtivista,
aqueles dois elementos, tanto na formação do conhecimento quanto no
processo de ensino-aprendizagem escolar, são insuficientes em si
mesmos. É necessária a interação entre os dois; e, na escola,
essa interação ocorre por meio da facilitação oferecida pelo
professor.
3.
“… e, no fim, chegará a obter toda uma concepção
organizada do mundo a partir da [sic]
mero experimento espontâneo. […] Agora, toda esta escola
que foi adotada no Brasil, há cinquenta anos, e vê esses filhos das
p***** desse Jean Piaget, Emilia Ferreiro, Vygotsky,
Paulo Freire… todo esse bando de charlatão e vigarista [sic],
p****!… O ensino é
assim: o ensino não pode ser diretivo…”
Esse
é o tipo de afirmação feito por quem não conhece as teorias que
servem de base para o construtivismo. Os diferentes métodos
construtivistas não são espontaneístas ou não-diretivistas, como
assevera Carvalho. Piaget, por exemplo, ensinava que a aprendizagem é
“provocada” pelo professor. Para Vygotsky, o professor é o
“mediador” da aprendizagem. Para Wallon, é através da
“intervenção” planejada e informada do professor que ocorre a
aprendizagem na escola. Todos eles desmentem a afirmação do
candidato a filósofo da educação acima sobre qual seria a
perspectiva teórica construtivista.
4.
“… é pra isto que existe a figura do mediador, do professor…
sem o qual o aprendizado é impossível, impossível."
Nesse
ponto, posso concordar com o filósofo. Toda aprendizagem é sempre
mediada. Para o construtivismo, na escola, essa figura de mediador é
assumida pelo professor. Obviamente,
o professor não é o único mediador no processo de aprendizagem
duma criança, dum jovem ou dum adulto; ele o é no meio escolar.
É
importante, aliás, conceituar a própria mediação,
para evitarmos maiores incompreensões. O termo refere-se ao elo
(leia-se “ponte”, “ligação”) entre o sujeito e seu objeto
de aprendizagem – ou seja, é um processo de facilitação da
construção do conhecimento por um personagem extra nessa interação
entre o sujeito e o objeto. Isso
é parte essencial das teorias construtivistas, e só alguém que não
conheça as obras dos autores-chave dessa tradição poderia afirmar
o contrário.
5.
“Eu hoje mesmo tava [sic] lendo, a primeira página da Folha
de São Paulo, você tem uns vinte erro [sic] de gramática na
primeira página dum jornal, p****! Isso quer dizer que os
profissionais de idioma não sabem mais o idioma… E as pessoas
assim, elas não conseguem raciocinar…”
E
isso foi, na verdade, para fechar com chave de ouro! Nem falarei
sobre as perspectivas linguísticas abraçadas pelo pensador acima.
Não preciso, agora, comentar mais nada dito nesse vídeo. Só me
resta dizer que quando falamos, sem limites de bom senso, sobre tudo
– mesmo aquilo que não conhecemos –, corremos o risco de, além
de nos contradizermos, nos ridicularizarmos! Essa é uma lição que
mesmo os grandes “filósofos” deveriam aprender!
A
maioria de meus alunos(as) – sim, utilizo essa palavra por não
subscrever ao mito sobre suas origens – conhece algumas de minhas
posições ideológicas. Meus alunos e alunas sabem, por exemplo, que
dou preferência à paz, que sou um defensor da liberdade de
consciência e expressão, e que sou um promotor da democracia em
nossa própria relação; conhecem minha visão sobre ouvirmos os
vários lados de uma discussão para sermos capazes de construir um
julgamento mais equilibrado e justo; sabem o quanto rejeito o
preconceito infundado contra ideias e pessoas, e sabem até que ponto
posso provocá-los para que analisem seus próprios argumentos numa
discussão.
…Tudo
isso é muito explícito na relação que construímos em sala –
faço questão de deixar claro de onde falo, e de que saibam que
podem discordar de qualquer coisa que eu diga, desde que defendam
argumentos sólidos em sua oposição (um foco em tudo o que fazemos
em sala).
Esse
é o meu “partido”, o meu “lado”. E todos eles podem tomar
parte em qualquer “partido”, qualquer “lado”. Se discordar da
visão de qualquer um deles ou delas, conhecerão exatamente quais
são minhas razões. E sempre incentivo a cada um deles a expressar
suas opiniões e razões.
Meus
alunos, contudo, nunca ouviram de minha boca que deveriam votar nos
candidatos do partido A, B ou C, porque os dos demais partidos eram
piores. Nunca me viram com camisetas, bandeiras ou etiquetas
partidárias. E nunca ouviram ou viram isso porque confio em e
respeito: 1) sua inteligência e autonomia; e 2) meu próprio
trabalho. Mas, ainda assim, acredito que saibam claramente qual é o
meu “partido”, isto é, de que “lado” estou no mundo que nos
cerca.
Durante
toda a minha carreira como professor, ao longo da última década e
meia, tenho me esforçado para ajudar os estudantes com quem trabalho
a desenvolverem a capacidade de questionar o que digo e suas próprias
certezas, e de articular seus pensamentos de forma racional e
inteligível. Esse é um de meus trabalhos principais como professor
– especialmente nesta época na qual qualquer pessoa tem acesso a
[quase] qualquer tipo de informação sem a necessidade de
intermediação dum tutor.
Confesso
que isso não é fácil. Nem sempre é fácil convencê-los de que é
possível integrar o que aprendem em outros componentes curriculares
aos nossos cursos de Língua, Literatura, História ou Filosofia. Nem
sempre é fácil facilitar debates de temas “polêmicos” em
classes que possuem estudantes com backgrounds tão diferentes
entre si, e tão diferentes do meu. Nem sempre é fácil ensinar que,
num debate, nossas emoções devem ser limitadas pela “racionalidade”
crítica. Nem sempre é fácil ajudá-los a perceberem que nem sempre
as respostas que encontramos são a coisa mais importante: o caminho
que percorremos até uma resposta, frequentemente, é muito mais
importante. Nem sempre é fácil, mas minha experiência me mostra
que é possível. Os riscos são altos – afinal, em nossas escolas
acorrentadas às visões do século XIX, um professor despir-se da
manta da “autoridade” para ensinar sobre autonomia e liberdade
intelectual é quase cometer suicídio profissional diante de alguns
colegas e pais –, mas têm sido, até aqui, recompensadores.
Sim,
em minha sala de aula sempre haverá “partidos”. Sempre haverá o
“partido” de cada um de nós, pois todos temos os nossos
próprios. Sempre haverá ideologias, credos, crenças, ideias,
convicções por trás do que ensino e como ensino. Os livros e os
temas que escolho para discussão são baseados em certa compreensão
que tenho do mundo – em certa “ideologia”. As respostas de meus
alunos, seus argumentos e suas discordâncias são todos também
baseados na forma como enxergam o mundo. Esses são nossos
“partidos”, nossos “lados”. É tolice pensar que qualquer
forma de ensino seja descompromissada com um “partido” (no
sentido metafórico ou factual). Tudo o que faço, como professor ou
cidadão, é plenamente “partidarizado”; e isso porque sou um ser
racional, consciente de minhas escolhas ideológicas.
Imaginar
e dizer que a discussão de um livro com os alunos aos quais ensino é
uma tentativa de “fazer lavagem cerebral” neles é subestimar sua
inteligência. Eles foram suficientemente maduros para selecionarem
sua leitura, e têm sido suficientemente maduros para se engajarem na
leitura e discussão do livro. Pessoalmente, confio em sua maturidade
e capacidade, e em minha própria para facilitar as discussões. E
convido a cada um dos pais, mães ou responsáveis a participarem de
nossas aulas e discussões. Se estiverem lá, perceberão que seus
filhos são plenamente capazes de defenderem seus próprios pontos de
vista e convicções. Perceberão que todos eles têm seus próprios
“partidos”, pois são seres humanos – seres que pensam
sozinhos. E se perguntarem a eles, se lerem o que eles escrevem, se
averiguarem os tipos de trabalhos que fazem, perceberão que têm uma
ampla liberdade em nossas aulas.
E,
novamente, reafirmarei que em minha sala de aula sempre haverá
“partidos”! Isso é uma exigência de qualquer atividade racional
e que se considere “científica”, como o é a empreitada escolar!
Sempre estarei disposto a pagar o preço necessário pela
“multipartidarização” de minha sala de aula.
Escolho
não participar das disputas medíocres que emergiram na grande mídia
e nas redes sociais sobre as propostas da BNCC – a Base Nacional
Comum Curricular –, especialmente no que concerne às minhas áreas
de ensino na Educação Básica. Contudo, como um professor veterano
– diferentemente dos “especialistas” que nunca puseram um pé
na sala de aula como professores da Educação Básica –, gostaria
de fazer algumas observações pessoais:
Enquanto
uma padronização curricular nacional seja, até certo ponto,
desejável, a mesma não é suficiente para resolver os problemas
enfrentados na Educação Básica brasileira. Mais uma vez, parece
que não se consegue sair das velhas disputas sobre “o que
ensinar”, quando o desafio, na vida real da sala de aula, é muito
mais complexo do que isso.
Mais
do que sugerir a inclusão ou exclusão de temas nos conteúdos
curriculares, o que precisamos é pensar nos atores principais do
processo educativo formal: os/as estudantes. E pensar nesses atores
significa considerar seus próprios interesses no que tange à sua
formação; significa conceder-lhes um certo grau de autonomia, de
acordo com sua capacidade cognitiva, para que escolham, dentre certas
opções, o que querem aprender.
Ora,
o problema é que a educação ainda é pensada a partir de
perspectivas hierárquicas, corporativistas e autoritárias – desde
a educação infantil até a superior. Os próprios professores são
treinados para atuar nesse molde, tendo muita dificuldade de enxergar
seu fazer fora dum eixo vertical de cima para baixo. Isso se
explicita na própria formação docente, por exemplo (os professores
não são formados para ensinar em “áreas”, mas em “componentes”
individuais), e no modus operandi da escola.
Sempre
fico muito perturbado com a forma como tão facilmente as ideias
atreladas ao currículo são dissociadas da forma como as relações
são construídas na escola. Pare e pense, por exemplo, no que muitos
de nós – se não a maioria – fazemos enquanto ensinamos sobre
autoritarismo, por exemplo, nas (talvez equivocadamente) chamadas
Ciências Humanas. Tratamos sobre questões referentes à liberdade
de expressão e censura, democracia e ditadura etc, num ambiente cuja
arquitetura nos torna [os professores, isto é] o centro do processo
– afinal os assentos dos estudantes se dirigem a nós, e espera-se
que todos eles olhem para nossa direção, como evidência de sua
submissão à nossa autoridade –; num ambiente no qual, muitas
vezes, a discordância e o inconformismo são interpretados, por nós,
como sinônimo de “desrespeito”; num ambiente no qual a fala
autoritária do professor é vista como ensino, mas o questionamento
do estudante não é visto como aprendizado; um ambiente no qual o
estudante é obrigado a “estudar” tudo o que os legisladores e
“especialistas” lhes impuseram, independentemente de seus
interesses; num ambiente no qual os resultados que realmente importam
são expressos em notas alcançadas numa prova.
Esses
são pontos que deveriam ser discutidos em qualquer tentativa de
reforma curricular – considerando que “currículo” seja muito
mais do que apenas “conteúdos”.
Sim,
obviamente sei que minhas perspectivas e expectativas resultam de
minha formação numa cultura escolar estranha àquela experienciada
pela maioria de meus colegas e concidadãos brasileiros. Mas é
justamente minha experiência pessoal, tanto como estudante quanto
como professor, que me faz crer e confiar firmemente no papel da
autonomia na educação. Há algo de deficiente nas expectativas do
sistema escolar quando o estudante é controlado durante toda a sua
vida e, repentinamente – se e quando tiver a oportunidade de
alcançar a Educação Superior –, tem de encarar escolhas por si
só (supondo que, de fato, as faça); ou tem de fazê-las em sua vida
profissional ou mesmo emotiva. Como nunca pôde escolher nada de
impactante em sua vida, como os componentes que estudaria na escola, por
exemplo, como pode ter desenvolvido maturidade suficiente para lidar
com as escolhas da vida adulta?
Todos
esperamos que os jovens e adultos sejam capazes de articular seus
pensamentos de forma inteligível, mas como o poderiam fazer se
passaram a infância e a adolescência sendo censurados inclusive por
aqueles que deveriam tê-los ajudado a desenvolver suas habilidades
discursivas? Como poderiam ser adultos autoconfiantes quando passaram
sua infância e adolescência sendo tratados como incapazes e
subalternos?… Você pensa que a escola não faz isso com os
estudantes? Pois é exatamente isso que faz quando não reconhece seu
direito à autonomia!
Então,
querem uma reforma curricular? Comecem por dar responsabilidades aos
estudantes quanto à sua própria formação, de acordo com suas
capacidades, além de reconhecer seu direito à criatividade, ao
erro, à tentativa… Diminuam os componentes curriculares
obrigatórios na Educação Básica; criem componentes optativos;
mudem a forma de organização física das salas de aula; acabem com
a absurda indústria da metrificação da aprendizagem; formem
professores que possam atuar em áreas de saber e não apenas em
componentes isolados, que sejam também autônomos, ao mesmo tempo em
que tenham competência para colaborar.
Obviamente,
a melhora nas condições de trabalho (inclusive de pagamentos e
benefícios) dos professores é também importante, mas a experiência
demonstra que isso não é suficiente. Assim como não são as
decisões burocráticas acerca do currículo. Melhorar as condições
e os resultados da educação escolar exige ações muito mais
amplas!
Há
pouco mais de uma semana, numa escola nova – e bem diferente do
privilegiado ambiente sociocultural ao qual estava acostumado em
minha escola prévia –, iniciei o ano letivo. Uma turma, em
especial, tornou-se o retrato dos novos desafios para minha vida como
professor naquela nova realidade. Nosso primeiro encontro foi
barulhento, mas bastante frutífero. Desenvolvemos uma discussão em
pequenos grupos sobre algumas frases provocadoras. Eram adolescentes,
alunas e alunos do primeiro ano do Ensino Médio, sendo jovens
barulhentos. Apesar de eu ter ouvido alguns comentários negativos
sobre a turma um dia antes de nosso primeiro encontro, tudo
funcionara como esperado.
Uma
semana depois, a cena era bem diferente. O barulho era perturbador,
apesar de minhas tentativas de “trazê-los” à aula. Pareciam
sequer se importar com o fato de haver um professor em sala. A
maioria dos alunos e alunas daquela turma parecia nunca ter aprendido
noções básicas de bons modos em casa ou na escola. Uma voz
ergueu-se do fundo da sala com um xingamento torpe, e, segura de que
não seria punida, acrescentou: “É mais fácil que você perca seu
emprego do que eu seja mandada pra casa!”. Não preciso dizer que
fui tomado duma irritação anormal para uma personalidade como a
minha.
No
momento em que aquilo aconteceu, um zilhão de pensamentos pareciam
correr por minha mente. Uma cadeia de possíveis ações e
consequências invadiram meu raciocínio, como que servindo de
justificativa e condenação para qualquer coisa que eu fizesse.
Finalmente, lembrei-me que ela não poderia estar com raiva de mim,
já que não me conhecia; e, apesar de suas palavras e ações terem
sido desrespeitosas, seu desrespeito não era contra minha pessoa em
si, mas, no máximo, contra o papel que desempenhava ali, impondo-lhe
um tipo de conhecimento que não via como necessário.
Não
pedi que deixassem a sala – ela e os outros barulhentos que não
apreciavam o “perder o tempo com aula de Filosofia”. Por mais
fraco que isso possa parecer a outros professores, para mim seria
como dizer àqueles jovens – especialmente à garota que me xingara
– que eu desistiria deles facilmente.
Fugindo
ao meu plano de aula, pedi-lhes, como desafio, que se imaginassem
mortos e escrevessem um epitáfio para seus túmulos, como se fora um
amigo ou parente próximo escrevendo sobre eles. Poucos o fizeram,
mas os que foram escritos e compartilhados levantaram uma discussão
interessante sobre a consciência de si. Apenas nos últimos minutos
de aula voltei ao que ocorrera e deixei claro que aquele fora um
comportamento inaceitável, já que fora um desrespeito não só a
mim quanto ao resto da turma.
Hoje,
um dia depois do incidente, a Coordenação Pedagógica – que fora
informada sobre o que ocorrera – levou-me de volta àquela sala e
repreendeu vigorosamente a turma pelo ocorrido. Eles foram forçados
a me pedir desculpas. Confesso que me senti extremamente
desconfortável com a cena, mas, ao mesmo tempo, compreendo porque
aquilo foi feito.
Apesar
de aquele incidente, em particular, estar no passado, ele se junta a
outros tantos que já tive com alunos ao longo dos anos. E a pergunta
que sempre me vem à tona é “como lidar com comportamentos
indisciplinados, com sentimentos de frustração ou com a
demonstração de raiva por parte dos estudantes?” Será que
deveríamos encará-los como uma afronta a nós, ou seria “sintoma”
de outra coisa?
Como
tudo em nossas relações interpessoais, não há uma resposta única
e válida para todas as circunstâncias. Ademais, nem sempre seremos
capazes de dar a resposta adequada à situação durante o incidente
– pelo menos, isso é verdade em minha experiência pessoal.
Pessoalmente, penso que o que me resta, o que espero ser capaz de
fazer, é dar uma resposta madura e emocionalmente inteligente aos
problemas das relações com outras pessoas. E isso é algo que nunca
deixo de aprender em minha vida como professor.
Nossas
escolhas metodológicas são, em minha opinião, uma escolha
política. Assim, a forma como ensinamos, e a forma como nos
relacionamos com os estudantes em sala (e fora dela), é uma
expressão da forma como compreendemos tanto o ser humano quanto a
sociedade – um reflexo de nosso imaginário antropológico e
político. Isso faz com que eu sempre me preocupe quando vejo uma
sala de aula organizada em fileiras direcionadas ao professor, com
ele ocupando uma posição magistral diante de seus alunos: o
que essa organização diria sobre o imaginário antropológico e
político da escola e do professor?
Nossa
sociedade, no século XXI, precisa de jovens que possam resolver
problemas, tomar decisões, pensar criativamente, comunicar ideias de
forma eficaz, e trabalhar eficientemente independentemente e em
grupo. O tipo de professor que funciona como “transmissor” de
conhecimento por meio de aulas exclusivamente expositivas, falando
duma posição de autoridade exclusiva em sala de aula é
insuficiente para preparar o tipo de jovens que nossa sociedade
precisa.
No
mundo cada vez mais complexo e fluido no qual vivemos, os jovens
precisam de oportunidades para desenvolverem capacidades e
habilidades pessoais, associadas aos conhecimentos e compreensões
previstos nos programas curriculares, como parte de sua educação
escolar. Para tal, o professor precisa desenvolver a habilidade de
engajar seus alunos ativamente no processo de ensino-aprendizagem,
tornando-o uma experiência mais relevante, apreciável e motivadora.
Pessoalmente, essa é uma escolha metodológica que espelha minhas
próprias compreensões sobre o ser humano e sobre a vida em
comunidade – meu imaginário antropológico e político.
Esse
processo de ensino-aprendizagem no qual os alunos participam mais
ativamente tem implicações diretas para o papel desempenhado pelo
professor em sala de aula. Há, aí, uma mudança daquele conhecido
modelo centrado no professor para uma abordagem centrada no
aluno. Há, também, uma mudança do ensino-aprendizagem
centrado no produto para um ensino-aprendizagem centrado no
processo.
Colocar
o
aluno na
posição central no processo de ensino-aprendizagem não significa,
diferentemente do que se poderia pensar, diminuir a importância do
professor nesse processo. Como afirma Libâneo,
O
professor é aqui um parceiro mais experiente na conquista do
conhecimento, interagindo com a experiência do aluno. O papel do
ensino – e, portanto, do professor – é mediar a relação de
conhecimento que o aluno trava com os objetos de conhecimento e
consigo mesmo, para a construção de sua aprendizagem. O papel do
ensino é possibilitar que o aluno desenvolva suas próprias
capacidades para que ele mesmo realize as tarefas de aprendizagem e
chegue a um resultado.1
Poderíamos
ilustrar essa mudança de abordagens por meio do uso de uma tabela.
Do lado esquerdo, veremos aquilo que poderíamos chamar de abordagem
magistral (porque centrada na autoridade
exclusiva do professor) do processo de ensino-aprendizagem, e, do
lado direito, aquilo que nomearemos abordagem democrática
(porque centrada na participação comunitária de todos os
envolvidos) do processo de ensino-aprendizagem – como a mudança de
papel do professor implica, também, uma mudança de papel do aluno,
dividirei a lista em duas partes:
PAPEL
DO PROFESSOR
De uma
“abordagem magistral”
Para uma
“abordagem democrática”
Centrada
no professor
Centrada
no aluno
Centrada
no produto
Centrada
no processo
Professor
é “transmissor do conhecimento”
Professor
é “organizador do conhecimento”
Professor
é o que faz, o que tem as respostas
Professor
facilita a aprendizagem
Foco na
matéria/componente curricular específico
Foco numa
aprendizagem holística
PAPEL
DO ALUNO
De uma
“abordagem magistral”
Para uma
“abordagem democrática”
Recipiente
passivo do conhecimento
Aprendiz
ativo e participativo
Centrada
na resposta a perguntas
Centrada
no questionamento
Receptor
da “transmissão” do professor
Assume
responsabilidade por sua própria aprendizagem
Compete
com outros alunos
Colabora
com outros para sua aprendizagem
Quer
dominar a discussão, sempre tendo razão
Ativa e
participativamente, ouve às opiniões dos outros
Aprendiz
de matéria/componentes individuais
Conecta e
inter-relaciona sua aprendizagem
Mas
o que significa, afinal de contas, chamar o professor de facilitador?
Num
ambiente escolar onde se opta por uma abordagem democrática do
processo de ensino-aprendizagem – isto é, uma abordagem que
enfatiza uma participação ativa dos estudantes nesse processo –,
o professor apoia seus alunos em seus esforços para aprenderem e
desenvolverem habilidades tais como avaliar evidências, negociar,
tomar decisões informadas, resolver problemas, trabalhar
independentemente ou em grupo, etc. Para isso, a participação dos
alunos em seu próprio aprendizado é essencial.
Algumas
vezes, o professor-facilitador terá de assumir um papel ou uma
função específica para melhorar a aprendizagem na sala de aula, ou
para desafiar seus alunos para que pensem de forma diferente. Alguns
desses papéis poderiam incluir:
facilitador
neutro:leva
o grupo a explorar diferentes pontos de vista sem explicitar sua
própria opinião;
advogado
do diabo:
o professor deliberadamente adota uma posição oposta para
confrontar os alunos, independentemente de sua própria visão;
posições
explícitas:
o professor declara sua própria posição, para que o grupo, assim,
conheça suas opiniões;
aliado:
o professor apoia a visão de um subgrupo ou indivíduo (geralmente
uma minoria);
posição
oficial:
o professor informa à turma a posição oficial sobre certos temas,
por exemplo, a Constituição Federal, as leis, certas organizações
etc – um exemplo: “nesta classe não aceitaremos insultos
racistas, sexistas, homofóbicos, porque além de serem descorteses,
violam a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Constituição
Federal e as leis brasileiras”;
desafiador:
o professor, através de questionamentos, desafia as opiniões sendo
expressas pelos alunos e encoraja-os a justificarem suas posições;
provocador:
o professor apresenta um argumento, ponto de vista ou informação
que
ele sabe provocará a turma, e nos quais ele não necessariamente
acredita, mas por serem crenças autênticas de outros indivíduos
ou grupos, ele os apresenta convincentemente;
ator:
o professor torna-se uma pessoa ou personagem particular (por
exemplo, um político, comunicador, ou líder religioso),
apresentando à classe seus argumentos ou opiniões.
Os
papeis listados acima apresentam suas vantagens e suas desvantagens,
e é deveras importante considerá-las quando do planejamento de
nossas aulas. Algumas perguntas sobre as quais poderíamos pensar
incluem:
Como
me sentirei se assumir este papel?
Posso
pensar em áreas de minha prática atual nas quais alguns desses
papeis poderiam ser desempenhados?
Já
assumo alguns desses papeis inconscientemente?
Há
alguma necessidade específica em minha turma que deva ser
considerada?
Que
estratégias posso usar para lidar com problemas difíceis e
desafiadores que possam surgir?
Já
decidi exatamente quais são os objetivos da aula?
Etc,
etc, etc...
É
importante lembrar-se, contudo, que para que nos tornemos
facilitadores em sala de aula, devemos nos engajar num cuidadoso
trabalho de planejamento. Em minha própria experiência, assumindo
diferentes papeis em sala – de acordo com meus objetivos –, isso
é ainda mais importante. É só por meio dum cuidadoso planejamento
que podemos saber o que poderia ou não funcionar com nossas turmas,
nossos objetivos, o tema que trataremos em sala etc; ajudando, assim,
nossos alunos a assumirem eles mesmos um papel mais ativo em sua
aprendizagem.
Referências
1LIBÂNEO,
José Carlos. Didática:
velhos e novos temas. [S/l]: Edição do Autor, 2002., p.5.
Poucas
instituições são tão hierarquizadoras quanto as instituições de
ensino oficial – sejam elas da Educação Básica ou da Educação
Superior. Independentemente das perspectivas agógicas (isto é,
pedagógicas, hebegógicas, adagógicas, gerentogógicas etc)
adotadas pela instituição ou pelo professor, a educação formal
sempre se baseia na dependência dos estudantes para com um eixo
hierárquico de autoridade – autoridade esta que pode se
centrar na figura do próprio professor, dos textos
escolares/acadêmicos, das tradições que modelam a sociedade, etc.
O fato é que, por mais que neguemos isso, a educação
institucionalizada, de modo geral, faz muito pouco para ajudar os
estudantes a se tornarem realmente autônomos – e isso desde a mais
tenra idade.
Lembro-me
de quando comecei a ensinar numa determinada escola pública nova
iorquina há cerca de uma década atrás. Discutíamos um de meus
temas favoritos em História dos EUA – o chamado “Movimento pelos
Direitos Civis” (o segundo, de meados do século XX) –, e três
de meus alunos fizeram uma reclamação formal a meus superiores por
eu os estar “forçando” a ler outras coisas e a ouvir testemunhos
de visitas que trouxe à sala, enquanto deixava de lado o livro
didático de história. Seu argumento era que eu estava tirando deles
a oportunidade de estudarem o “currículo oficial” e se
prepararem para as provas aplicadas pelo Departamento de Educação
do Estado (felizmente, meus superiores discordaram da opinião
daqueles alunos!).
Aquele
incidente me deixou extremamente perturbado por algum tempo.
Perturbei-me porque a reclamação, aparentemente, partira dos
próprios alunos, e não de seus pais. Mesmo sendo apenas três deles
– os considerados mais brilhantes da turma –, aquilo mostrava a
compreensão que tinham do que deveríamos fazer em sala: eles seriam
apenas receptores dum conhecimento acabado, e eu não passava dum
transmissor. Ficava me perguntando o que tínhamos (a escola) feito
com aqueles adolescentes para que rejeitassem a oportunidade de
chegarem às suas próprias conclusões por meio do conhecimento de
outras opiniões que podiam diferir do que o livro didático lhes
oferecia. Aqueles estudantes, no final das contas, só estavam
seguindo o que a escola os adestrara a fazer: sigam as regras,
repitam o que “aprenderam”, e tudo estará bem!
Aquele
incidente, para mim, retrata bem o efeito que a mentalidade
autoritária pode ter na percepção que estudantes têm de seu valor
e capacidades – e isso ocorre igualmente na Educação Superior.
Frequentemente, a escola/universidade parece treinar pessoas para que
sejam excelentes repetidores do que já foi dito e feito, mas
incapazes de criar algo novo a partir daquilo que supostamente
aprenderam. Nas humanidades, por exemplo, professores se esforçam
para ensinar o que, para eles, é certo; mas não esperam de seus
estudantes a capacidade de apresentarem um alto nível de
discordância – isto é, uma discordância que apresente argumentos
bem fundamentados, de acordo com a capacidade e experiência do
estudante.
Esse
problema da autoridade na educação me faz lembrar da questão do
2+2. Como gosto de dizer, 2 + 2 nem sempre é igual a 4.
Esse resultado sempre dependerá da escala de medida que utilizamos
(se nominal, ordinal, intervalar, ou de razão). E apenas nas escalas
intervalar e de razão o resultado será 4. O motivo pelo qual
pensamos que 2+2 é sempre igual a 4 é porque, na escola, a maioria
de nós apenas utilizou a escala de razão.
Se
nem com a matemática podemos atingir um produto que sempre será
inquestionavelmente correto, o que dizer das humanidades?... É
justamente por isso que prefiro que os estudantes sejam capazes de
chegar a conclusões próprias (mesmo que pessoalmente não concorde
com elas), construindo seus argumentos por meio da análise das
evidências, comparando seus argumentos com aqueles que a instituição
escolar lhes impõe, do que ensiná-los a aceitar a “tradição”
sem questioná-la. Quem sabe um dia as escolas e as universidades não
se tornarão templos da autonomia, espaços onde discordar
construtivamente seja mais importante que marcar a opção “correta”
em provas padronizadas... Sonho com esse dia!